CULTURA IN FOCO


"Cada artista é um soldado contra o fascismo", diz diretor de Jesus Kid, premiado em Gramado

Aly Muritiba dirigiu e roteirizou Jesus Kid, inspirado em livro de Lourenço Mutarelli

Canal Utopia
25/08/2021

O filme Jesus Kid foi o vencedor em 3 categorias na 46º edição do Festival de Gramado: melhor direção e melhor roteiro para o diretor paranaense Aly Muritiba e melhor ator coadjuvante para Leandro Daniel. A premiação sem público presencial e transmitida pela internet ocorreu no último sábado (21), direto da cidade na serra gaúcha.

O filme é uma adaptação de um livro homônimo de Lourenço Mutarelli, com direção e roteiro de Aly Muritiba. Aly recebeu o convite para roteiro e direção do ator Sérgio Marone que comprou os direitos do livro. A obra trata da história de Eugênio, personagem feito pelo  cantor e ator Paulo Miklos, que é um escritor de western em dificuldades. Seu personagem mais famoso, Jesus Kid, está indo mal de vendas. Então aparece o que poderia ser a sua salvação: ele é contratado para escrever o roteiro de um filme e para isso, precisa ficar confinado em um hotel por 3 meses. E, começa a ser visitado pelo personagem do seu filme, Jesus Kid,  encenado pelo ator Sérgio Marone, que também é produtor do filme.

Aly Muritiba é responsável por filmes como Ferrugem (2018), premiado em Gramado, e Para Minha Amada Morta (2015). Ao Brasil de Fato Paraná, ele contou que foram quase dez anos até conseguirem colocar o filme em pé e destacou a importância de continuar insistindo na arte brasileira. “Acho que ter dois filmes neste momento é a forma de passar um recado para este governo fascista que eles não nos calarão, não nos pararão.” O outro filme, Deserto Particular, concorrerá no Festival de Veneza, que será realizado ainda este ano.


Confira a entrevista:

- Gostaria que você nos contasse como foi o encontro com a história deste filme e todo o processo até chegar nesta premiação tão importante?


Aly Muritiba: Jesus Kid é a adaptação de um livro homônimo escrito por Lourenço Mutarelli, cujos direitos foram comprados pelo ator Sérgio Marone. Em 2012, conheci o Sérgio no Festival de Los Angeles e lá ele viu um curta metragem meu. Gostou do meu trabalho e me convidou para escrever o roteiro e dirigir Jesus Kid. Eu nunca tinha feito um longa metragem e nem comédia. Achei que seria um ótimo desafio. Quase 10 anos trabalhando no roteiro até conseguir o recurso para fazer o filme.

A história é sobre Eugênio, um escritor de pocket book western que está vivendo seus piores dias. Então, ele recebe dois convites: um deles é para ser ghost writter da biografia do presidente do país e o outro convite para um roteiro sobre um escritor escrevendo em um hotel e vivendo uma crise de criatividade. Dentro destas duas propostas esdrúxulas, ele aceita a segunda e se isola num hotel. Lá, ele começa a também ser perseguido por emissários do presidente da República que querem a todo custo convencê-lo.

- Quais as alegrias e as dificuldades para colocar este filme em pé?

O processo de filmagem foi uma grande alegria. A gente se divertiu todo o tempo, com muita gente de Curitiba, com um grupo que já vinha trabalhando há bastante tempo. Estávamos contando uma história divertida. Agora, até conseguirmos as condições para filmar foi a grande dificuldade: foram quase dez anos batalhando para conseguir financiamento.  

Você já está a algum tempo inserido no contexto nacional de cinema. Mas, por ter começado aqui no Paraná, vê ainda muitos desafios para o cinema paranaense ?

Embora não seja paranaense, sou baiano, eu comecei a fazer cinema no Paraná em 2008. Fiz Faculdade de Cinema no Paraná. E, até hoje busco levar minhas produções para o Paraná. Jesus Kid é um destes casos. É uma história que, originalmente, se passava em São Paulo, mas eu decidi levar para filmar todo ele em Curitiba.  

O audiovisual paranaense enfrenta sempre muitas dificuldades porque dependemos de incentivos públicos tanto na esfera municipal como na estadual. Os recursos são bem parcos no município e no estado, nem sempre há edital.

Do Paraná, no elenco, participam também a atriz Maureen Miranda e os atores Luthero de Almeida, Fábio Silvestre e Otávio Linhares. 

Qual teu sentimento ao ser premiado justamente neste momento da pandemia e de descaso e ataques do governo brasileiro à arte e aos artistas?

Eu estou neste momento com dois longas metragens prontos, um deles é o Jesus Kid e o outro é Deserto Particular, que trata de amor, encontros e desta sociedade conservadora que estamos metidos. Este estreia no mês que vem no Festival de Veneza, um dos maiores do mundo.

Acho que ter dois filmes neste momento é a forma de passar um recado para este governo fascista. Eles não nos calarão, não nos pararão, muito embora eles tentem nos destruir, vamos resistir. Todo mundo que está fazendo arte neste momento é um resistente. Já que este presidente fascista gosta tanto da linguagem bélica, eu digo que cada fazedor de cultura é um soldado, cada um em sua trincheira para enfrentar o fascismo cuspido diuturnamente por eles sobre nós.  


https://www.brasildefato.com.br/

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