Por que é tão difícil largar o celular?

Do ponto de ônibus à mesa de jantar, psiquiatra alerta para os riscos da hiperconexão para a saúde mental

Por RENATA SANTOS PORTELA
4 Min

Por que é tão difícil largar o celular?
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Nas ruas, no ponto de ônibus, na academia ou até durante o jantar em família, basta olhar ao redor para perceber um comportamento que virou rotina: cabeças inclinadas, olhos fixos na tela e dedos deslizando sem parar. O celular se tornou uma extensão da vida moderna e sair dele parece cada vez mais difícil. Mas por que é tão complicado se desconectar?

Segundo o psiquiatra e especialista em saúde mental Eduardo Araujo, a resposta está no funcionamento do próprio cérebro. As redes sociais são projetadas para estimular áreas relacionadas ao prazer e à recompensa, criando um ciclo difícil de interromper.


“As plataformas oferecem uma combinação praticamente infinita de vídeos curtos, memes e conteúdos criativos que ativam regiões do cérebro ligadas à sensação de recompensa. Isso não significa que o celular seja um vilão, mas que ele amplifica vulnerabilidades já existentes e cria ciclos de hiperestimulação difíceis de romper”, explica.

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Dados recentes de um estudo realizado pela  Consumer pulse mostram que os brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia navegando na internet, sendo mais de 3 horas dedicadas exclusivamente às redes sociais.

Embora a tecnologia tenha facilitado a comunicação e o acesso à informação, a hiperconexão também traz consequências para a saúde mental. Ansiedade, estresse, sobrecarga mental e alterações no sono estão entre os efeitos mais relatados por especialistas.

“Quando estamos constantemente conectados, o cérebro permanece em estado de alerta. Isso pode dificultar o descanso mental e interferir diretamente na qualidade do sono e na capacidade de concentração”, destaca o psiquiatra.

Impactos diferentes em cada fase da vida
Os efeitos do uso excessivo das telas não são os mesmos para todas as idades. De acordo com o especialista, adolescentes e jovens estão entre os grupos mais vulneráveis.

“Eles estão em uma fase crucial de desenvolvimento social e emocional. A exposição excessiva, principalmente às redes sociais, pode estimular comparações constantes e gerar sentimentos de inadequação, irritabilidade e até depressão”, afirma Araújo.

Além disso, o excesso de interação digital pode prejudicar o desenvolvimento de habilidades interpessoais e criar uma dependência emocional das interações virtuais. Entre adultos, o problema costuma aparecer na forma de sobrecarga mental e aumento do estresse, muitas vezes impulsionado pela pressão por respostas rápidas e pela avalanche de informações.

Já entre os idosos, outro desafio se destaca: a maior exposição a golpes virtuais e notícias falsas, especialmente entre aqueles que ainda estão se adaptando ao ambiente digital.

Apesar dos riscos, Araujo ressalta que o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada. “O objetivo não é abandonar o celular, mas desenvolver uma relação mais consciente com a tecnologia. Pequenas mudanças no cotidiano podem fazer uma grande diferença para a saúde mental”, orienta o psiquiatra.

Limitar o tempo de uso diário, silenciar notificações e priorizar interações presenciais estão entre as estratégias recomendadas para se estabelecer o equilíbrio entre o mundo digital e o real, um desafio cada vez mais urgente. “A tecnologia deve ser uma ferramenta para facilitar a vida, não para dominar o nosso tempo e nossas emoções. Aprender a se desconectar também é uma forma de cuidar da saúde mental.”
 

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RENATA DOS SANTOS PORTELA
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